Há cerca de duas semanas, tenho sido perseguida por uma piadinha de mau gosto que circula na internet e nas redes sociais. Primeiro, foi o mural de uma amiga muito querida no Facebook. Depois, passei a receber por e-mail. Trata-se de uma imagem de uma alface com uma legenda que diz mais ou menos assim: "Esta pobre alface morreu para que você se tornasse um vegetariano. Tenha compaixão, coma pedras." Minha amiga, por exemplo, mandava os vegetarianos comerem areia.
Bom, em primeiro lugar, se a gente for pensar apenas no humor pelo humor, a piada é digna de um Rafinha Bastos: agressiva e não tem graça nenhuma. Não é preciso agredir ou diminuir o outro para ser engraçado, né meu povo.
Em segundo lugar, me sinto quase na obrigação de entrar numa discussão que fujo feito o diabo foge da cruz. Sou vegetariana há quase 20 anos. Morro de preguiça de falar por que não como nenhum tipo de cadáver, e de explicar por que diabos um porco é diferente de uma rúcula. Simples assim: eu não falo sobre isso porque a discussão é tão rasa, mas tão rasa, que confesso que sinto até um certo desdém. A pessoa que provoca este tipo de conversa está num nível de informação infinitamente inferior ao meu - é como explicar por que nunca votei no Maluf. Não tenho saco, simplesmente mudo de assunto.
Há anos que sofro todos os tipos de gracinha por conta da minha opção. Por exemplo, neguinho adora chamar o vegetariano de "radical". Eu também acho "radical" um sujeito que come bife todo dia. Só não interfiro na opção dele. Quer comer o bife, come. Nunca cheguei num almoço e perguntei para o cara do lado, olhando fixamente para o seu prato, por que ele colocou um pedaço de costela gordurenta ali. Em contrapartida, todo mundo adora dar pitaco no meu prato, que sempre se torna o assunto predileto do evento. É como se o sujeito se sentisse agredido (ou culpado) porque a minha opção é diferente da dele. "Você vai comer só isso? Você não come nada?". Eu costumo ignorar, mas o chato não para. Tem prazer em continuar: "Você não tem pena da alface? Ela também estava viva e morreu".
Para começar, eu deixei de comer carne por diversas razões, que incluem a saúde física, mental, espiritual e até ambiental. Menos pena. Não tenho pena de ninguém. Nem da alface, nem da cenoura, nem do boi, nem do frango, nem do porco, nem do peixe. Ninguém é digno de pena, um sentimento tão torpe. Eu sinto compaixão. Quem não sabe a diferença, favor verificar no dicionário (falei que a discussão era rasa...).
Sinto compaixão, sim, por aqueles que morrem gritando de dor e desespero. Que são confinados, mal tratados, passam fome, são esmagados, têm suas vísceras arrancadas vivas, seus fígados inchados. Em suma: aqueles que, como nós, humanos, possuem sistema nervoso central e sofrem. A chicória pode até sofrer ao morrer, mas não me consta que ela tenha sangue correndo nas veias. Eu tenho, você tem, e os animais também tem.
Somos todos feitos de carne. Somos todos seres vivos, dividindo o mesmo espaço: este imenso planeta. É arrogante e pretensioso achar que temos mais direitos só porque nascemos humanos. Precisamos uns dos outros (lembre-se que nós não vivemos sem eles, mas eles vivem perfeitamente sem nós). Os seres humanos não só não se respeitam entre si como sentem um imenso descaso por todas as outras formas de vida. É só ver como está ficando nosso planeta, prestes a se tornar um imenso deserto.
Já cansei de ouvir que os animais existem apenas para nos servir, e que não é à toa que o homem está no topo da cadeia alimentar. Desculpa, mas não acredito que nenhum animal esteja aqui para me servir. Nem humano, nem não humano. No século passado, os negros escravos eram tratados da mesma maneira: como se não fossem vivos, não tivessem sentimentos, e estivessem aqui apenas para servir os brancos. Tipo uma "ordem natural" das coisas, sabe? Veja como hoje em dia isso nos parece abominável.
Os animais tem direito de serem respeitados, assim como eu, você, seu filho, meu filho. Se você acredita que deve continuar a comer carne, sem problemas. Mas respeite o próximo, incluindo aquele cara que foi parar no seu prato, sabe-lá em quais condições. Do mesmo jeito que não compramos uma roupa produzida por trabalho escravo ou infantil (alô Zara!), podemos não comprar carne ou frango que foram abatidas em condições desumanas. Comer, para mim, assim como outras formas de consumo, são atos políticos. No meu prato eu também expresso que acredito num mundo menos violento, mais compassivo.
"Você acha que os animais devem ser tratados como gente? Gosta mais de bicho do que de humano?". Acho que eles devem ser respeitados do mesmo jeito que os humanos, de igual para igual. Isso é diferente de tratá-los como uma criança ou uma boneca. Não acho saudável um cachorro pintado de rosa e de pantufas porque isso faz mal para ele, que curte brincar na terra, enfiar o focinho no chão, ter o pelo encaracolado e marrom. Ele é diferente de um ser humano, sim, que gosta de fazer as unhas e andar de sapatos. Mas sente dor e medo, tal qual a madame de laquê.
Eu também não como nenhum tipo de carne porque não acredito que o ser humano necessite de tanta proteína animal assim. Já não somos caçadores há algum tempo, como se sabe, e nosso sistema digestivo não tem capacidade de digerir e processar tanta carne com o pouco esforço que fazemos. Tanto que a evolução tem nos feito cada vez mais intolerantes. Isso sem contar os traços aparentes, como o atrofiamento dos dentes caninos, por exemplo.
"Mas e a proteína? E o ferro? Você vai ficar anêmica!" Eu nunca, repito: NUNCA, tive anemia. Nem na gravidez, quando todas as grávidas carnívoras que eu conheço tinham que se entupir de pílulas de ferro porque estavam super anêmicas. Nem no pós-parto, quando perdi litros de sangue. Nem quando sofri uma cirurgia. Nunca, nunca. Não é preciso comer carne para ingerir ferro (de novo, informe-se sobre o assunto). É preciso comer direito, saber onde estão as fontes de vitaminas. Nada muito complicado, garanto.
Meu filho tem 1 ano e meio e nunca comeu nenhum animal morto. Em comum acordo, eu e meu marido (não vegetariano) resolvemos que a carne, além de desnecessária, seria prejudicial à sua saúde e à formação de seu organismo. Benjamin nasceu com mais de 4 quilos, filho de mãe vegetariana. Mamou exclusivamente em peito de mãe vegetariana até os 6 meses, quando já tinha mais do que dobrado seu peso de nascimento. Com 10 meses já andava. Atualmente ele passa dos 82 centímetros, pesa mais de 12 quilos. É super saudável, rosado, esbanja saúde e esperteza. Nunca precisou fazer nenhuma reposição de ferro, como a maioria das crianças carnívoras que eu conheço, que tomam as tais gotinhas da vitamina. No lugar do remédio, ele come todos os dias lentilha, ervilha, feijão, suco verde. Tudo orgânico, bem entendido, porque os vegetais também merecem respeito.
É assim que pretendemos educar nosso filho: com respeito ao próximo. Respeitando, inclusive, as decisões alimentares dele se futuramente forem diferentes das nossas. Mesmo se um dia ele quiser comer carne, estará consciente que não deve, jamais, mandar ninguém comer pedra ou areia.
4 comentários:
Mari: obrigada pelo post didático. Deve ser chato mesmo, pra quem é PhD no assunto, explicar o mimimi das coisas. Mas é tremendamente importante. E você faz isso muito bem! Eu, como ignorante do assunto (mas interessada), agradeço.
Bjocas, Lívia.
Lívia, querida, desculpa o post meio agressivo e de certa forma até meio arrogante... Foi um desabafo de uma vegetariana que é agredida há anos e nunca se defendeu... Fico chateada, na verdade, não com as pessoas que se demonstram interessadas no assunto, e sim com a grande maioria que faz piadinhas e perguntas non-sense. Juro que não tenho nenhuma pretensão (mesmo) de convencer ninguém a virar vegetariano. Tanto que fujo do assunto. Cada um sabe (ou deveria saber) a energia que quer colocar para dentro de si. Mas, pôxa, esse povo deveria deixar os vegetarianos em paz!!
Beijo grande, querida
v é linda, minha amiga. adoro, sempre adorei, o respeito q v tem com os animais. adoraria conseguir ser vegetarina, até já tentei. e meu motivo é simples: não suporto saber q estou comendo outro ser, ainda mais indefeso q o ser humano. q sorte do ben! mil bjs de quem te admira muito, por essa e outras razões ;)
Liége, amiga querida, não é preciso ser vegetariano para respeitar outras formas de vida, entender o sofrimento alheio, etc. Você é um belo exemplo de um nível elevado de consciência. A Catarina vai crescer com estes valores, que lindo isso. Que bom que você existe!
Postar um comentário