Benjamin mal completou um ano e muita gente vem me perguntar quando é que vamos encomendar o segundo filho. Como se a produção tivesse que ser assim, no atacado.
Eu nem cogito esta possibilidade agora, portanto, se você começou a ler este post achando que eu ia dizer que estava grávida, pode tirar o cavalo da chuva. Confesso, porém, que este é um assunto sobre o qual eu e o Guga sempre conversamos aqui em casa - e estamos longe de chegar a uma conclusão. Há momentos em que eu quero muito, mas muito mesmo um segundo filho - me pego até escolhendo nomes de meninos (de menina eu não escolho porque preciso me acostumar mais com a ideia. Depois eu conto mais sobre isso, em outro post).
Só, que, parafraseando a falecida dileta Neuzinha Brizola, toda vez que me vem essa vontade, assim como a de fazer ginástica, eu sento e espero passar. Porque, antes de ter um segundo filho, é preciso fazer a seguinte pergunta a si mesmo: por que ter um segundo filho? Até agora nenhuma destas respostas abaixo me convence:
1. Porque ter irmãos é muito legal, ajuda a criança a saber dividir as coisas, evita que ela seja mimada e o centro das atenções.
Uma criança bem educada pode aprender que não está sozinha no mundo, apesar de não ter irmãos. Até porque ela vai à escola, tem família, tem amigos. Ou seja, convive com outras crianças e pessoas. Ninguém está restrito ao ambiente doméstico. Cabe aos pais promover esta convivência e ensinar que o mundo vai além do seu umbigo (na idade certa, evidentemente).
2. Os irmãos também podem brincar juntos e serem grandes amigos.
Quem garante? (vide Caim e Abel, os irmãos mais antigos e famosos da humanidade). Aliás, a maioria das pessoas que eu conheço tem pouca afinidade com seus irmãos. Gostam deles, claro, amam etc e tal. Mas não saem para tomar um chopinho com eles. Nem ligam para eles quando querem desabafar - costumam procurar um amigo para isso.
3. Porque acho lindo ter uma família grande
Este desejo não é pecado, mas é bom saber o ônus que ele carrega. Família grande significa espaço grande, para começo de conversa. Não dá para morar num apêzinho de dois quartos e acomodar a grande família numa boa. Depois pense num carro grande, e tudo grande. Empregadas grandes. É uma grande infraestrutura, que exige dinheiro grande neste país em que o Estado nada nos oferece - isso para falar só da parte material. Já se o objetivo da família grande for almoçar todos juntos no domingo, bem, então é melhor rever os conceitos desde já. Os irmãos podem crescer e cada um tomar seu rumo, bem longe dos pais, em países distantes, por exemplo - coisa perfeitamente possível de acontecer. Vai sobrar prato e macarrão na mesa.
4. Porque eu quero tentar uma menina para formar um casalzinho
Isso eu acho tão obviamente estúpido que prefiro nem gastar meu latim comentando. Filho é filho, independentemente do sexo que vier. O craque Toninho Cerezo, pai do transexual Lea T., que o diga.
*
É claro que alguns destes argumentos acima tem o seu lado de verdade. Claro que é legal ter irmãos. Eu nem imagino a minha vida sem meu irmão. Mas o que mais me incomoda nessa história toda é o foco do discurso. Repare no egoísmo embutido nestes pensamentos. A ideia de ter o segundo vem sempre para completar a vida do primeiro e da família - nunca se fala nele por ele mesmo. Até a expressão "dar um irmãozinho ao meu filho" aparece como se fosse um presente. Acho complicado trazer alguém ao mundo com o objetivo de fazer companhia a Benjamin, ensiná-lo a dividir, ser seu amigo. Quanta responsabilidade para um pobre bebê! Um cachorro poderia cumprir perfeitamente esta função.
Se eu quiser um segundo filho, gostaria que, em primeiro lugar, ele tivesse a certeza que seus pais desejaram sua presença por amor - e não por egoísmo nem presão social. Em segundo lugar, antes desta decisão ser tomada, é preciso saber se há condições emocionais dentro de mim para mais doações: dedicação, tempo, energia física e mental. Eu tenho tudo isso em dobro para doar? E continuar doando a Benjamin, sem nenhum prejuízo ao seu desenvolvimento? O dia em que a resposta for sim, então estarei pronta para engravidar novamente.
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8 comentários:
Se sobrar macarrão eu dou pro Franjuco!
penso exatamente igual a v. coitados desses segundos q chegam só para serem ´o presentinho para o primeiro´. e essa de ´fazer um casalzinho´ é das mais ridículas de todas, né?
já descartamos o/a segundo/a, e a sorte é q ela tem priminhos da idade dela. ok, primo não é irmão, mas quebra um galho he he he
e ainda lembrei de um filme, q até hj não tive coragem de assistir pq já sei q vou morrer de chorar, da irmãzinha q é feita p doar a medula p outra q tem câncer. olha a responsa! e ela se rebela. deve ser uma história triste, linda e absurda. uma prova de amor o nome, dei google. já viu?
Este seu post é tão filosoficamente interessante, que não estou conseguindo formular um comentário, Mari... Porque, de alguma forma, o segundo deve ser uma outra vez o primeiro, não é? É outra pessoa, a gestação será outra, o parto será diferente, os desafios serão outros... Concordo com todos os seu argumentos do contra. Mas não deixo de questionar o seu argumento final: às vezes a multiplicação faz ficar mais leve, a divisão multiplica e, de onde mais sai leite, mas leite há de sair!!! rs Fiquei pensando nas vantagens de eu vir de uma família de 3 irmãos e consegui pensar que são 3 pessoas que dividem uma mesma história, uma visão de mundo parecida, o mesmo passado. Sim, isso também acontece com os primos. Mas eles têm pais diferentes, moraram em cidades diferentes e não estudavam na mesma escola!! enfim... (Fiquei curiosa pelo "dilema da filha")
Bjs
Liege, querida, não vi o filme, mas só de pensar já me dá vontade de chorar. Acho um baita prejuízo emocional nascer para completar (ou salvar) a vida de alguém, credo.
Acho que os primos podem cumprir bem a função de irmãos - no seu caso, que estão todos por perto. No caso de Benjamin, tadinho, que não tem família nenhuma a menos de 400 km de distância, é diferente. Enfim, ainda temos uma loooonga discussão a respeito aqui em casa...hehe
Lívia, queridona, super concordo com você nessa questão da multiplicação do amor. Que cada um é um. E também na divisão de uma mesma história - sinto isso em relação ao meu irmão. Só nós dois conhecemos certas partes da nossa história, uma cumplicidade que vai existir pra sempre. E nós nunca tivemos primos por perto (assim como Benjamin também não terá), o que fortalece a importância da nossa ligação.
Mas... Meu irmão mais novo, por exemplo, teve sua cesárea agendada para o dia 21, porque coincidia com o meu dia de aniversário. Olha que absurdo. O nascimento dele, invariavelmente, foi atrelado ao meu. Não acho isso legal...
Por isso, antes de pensar na importância dos irmãos, tenho a impressão de que o pricipal questionamento deve ser: o que te motiva a ter um segundo filho? Por que trazer outra pessoa ao mundo? Se for para multiplicar o amor, ótimo. Mas duvido que a maioria esmagadora das respostas seja esta...
Parece até que eu escrevi...penso muito parecido com vc. E não aguento essa cobrança o tempo todo...saco.
bj
Nanda Jonas
Nanda, querida, nós mães já sofremos tantas cobranças, né? A começar pela auto-cobrança, que, cá entre nós, é a mais cruel de todas. Quando eu ouço essas coisas por aí, me faço de louca e mudo totalmente de assunto. Do tipo: "ai acho que preciso fazer as unhas..." Deixo a pessoa bem sem graça...hehehe.
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