Conversa vai, conversa vem, e lá estava eu batendo papo com outra mãe no parquinho sobre nossos filhos quando eram recém-nascidos. Ela é socióloga e seu filho tem hoje dois anos e meio. Segue o diálogo (com os nomes trocados, evidentemente):
- O João nasceu com um probleminha respiratório. Não conseguia respirar direito e ficou uns dias na UTI. Acho que demoraram muito para tirá-lo da minha barriga, deve ter sido isso.
Eu fiz cara de interrogação e perguntei:
- Desculpa, não entendi. Como assim tirar da barriga? Ele nasceu como? Você entrou em trabalho de parto?
Ela retrucou, assim, bem naturalmente:
- Não, imagina. Marquei a cesárea com 37 semanas, acho. Daí aconteceu isso na respiração dele.
Eu não resisti.
- Não sou médica, mas posso te dizer o que houve. Seu filho nasceu prematuro. Como os pulmões são os últimos a se formarem, provavelmente eles ainda não estavam prontos quando você agendou sua cesárea. Na hora em que foi tirado da sua barriga, o João não conseguia respirar ainda, por imaturidade pulmonar. Por isso, foi entubado e para a UTI. Uma gestação humana dura, em média, 40 semanas. Claro que isso varia muito, mas no seu caso, é possível que ele precisasse ficar mais cerca de 1 mês na sua barriga.
- Será? Será que errei na conta? Ah, mas tudo bem, né? Foram poucos dias de UTI, tudo certo. Foi até bom, pois pude ficar mais tempo no hospital, aproveitando as regalias do berçário, e cicatrizando meus pontos. E olha como ele é hoje alegre, feliz e saudável!
Fiquei com o coração apertadinho. Não sou dona da verdade, longe de mim. Mas alguém consegue achar este tipo de situação normal? Cesáreas são marcadas com tanta antecedência que os bebês nascem prematuros, sem conseguir respirar direito. As mães, por outro lado, sequer pensam nisso. Até o ato sagrado de respirar se tornou banal, assim como todo o resto: o que importa uns diazinhos na UTI?
Ai, gente, desculpa se me torno repetitiva às vezes. Mas não me conformo. Na minha mente, uma criança nunca deveria ir para a UTI porque a mãe agendou uma cirurgia por conveniência própria.
Uma coisa é a mulher entrar em trabalho de parto e a situação evoluir para uma cesárea que vai salvar a vida dela e do bebê. Outra coisa é marcar hora no hospital (e na UTI...) como se marca um cabeleireiro.
Eu me lembro do pavor que sentia de Benjamin nascer prematuro. Do medo de entubarem meu filho, de furarem suas veias, dele sofrer no hospital. Fiz repouso rigoroso para segurá-lo o mais tempo possível na minha barriga, pois queria que ele nascesse pronto para o mundo. O que passa pela cabeça destas mulheres?
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2 comentários:
uma socióloga!
Mari: vc fez o que pode. Nunca mais essa mulher vai se dar ao direito de dizer que sequer pensou nisso. Você deixou uma pulga; nas atuais circunstâncias... fez até muito!
Na minha cabeça, a sua próxima pergunta, depois que ela disse que o filho era "saudável e feliz" seria: "tem certeza?" rs
Beijos paulistas gelados.
Pois é, Li.
Eu não quis me alongar na conversa sobre isso porque imaginei que me tornaria ofensiva. É complicado apontar o dedo para alguém assim, questionar e levantar a hipótese de que o filho dela vive doente (e vive mesmo) por leviandade e ignorância dela.
Eu fiz uma cara de paisagem e fiquei olhando fixamente. Depois, disse: "Bom, já passou. Agora não há mais nada a fazer, não é mesmo?". Ela riu e disse que não "era corajosa, como eu".
Como se parto normal fosse sinônimo de coragem... Que horror. Não se trata de coragem e sim de responsabilidade...
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