quinta-feira, 5 de maio de 2011

Santa paciência

Filho, querido,

Você completou um ano. Pouco mais de um ano e um mês. Já anda, corre, senta, gesticula, pula, rola, sobe em cima do sofá, da cama, do armário. Cai, bate a cabeça. Chora, esquece. Sapateia, faz birra, se joga no chão. Fala poucas coisas, mas com precisão: mamãe (ufa, ainda bem...), papai, água, bola, vovó e a palavra campeã de repetições diárias: NÃO. Só para fechar a rima, hoje você falou mamão - para dizer a verdade, não sei se era a fruta, ou se você se referia a mim, mamãe. São palavras muito próximas, eu sei. De todo modo, também sei que você conhece muito bem a diferença entre mim e um mamão, fique tranquilo.

Preciso te dizer o quanto é encantador ver você repetindo palavras ao seu modo, mostrando para quê servem os objetos, gargalhando quando me vê fazendo alguma trapalhada involuntária, chutando a bola, me imitando ao digitar no computador, ou falando ao telefone. Meu coração se enternece de tal modo que nem sei como descrever.

Por outro lado, meu filho, esta fase tem sido um verdadeiro teste de paciência para esta sua mãe. Não é fácil lidar com suas vontades. Ontem, por exemplo, você demorou uma hora para dormir. Apesar de estar caindo de sono, rolou no berço, cuspiu, atirou tudo o que estava ao seu alcance no chão (com violência), jogou a chupeta na minha cara umas 20 vezes, bateu a cabeça na grade outras 10 vezes, me deu uma forte mordida no ombro e, para completar, quase arrancou o bico do meu peito fora com seus dentes afiados, coisa que deixou meu sangue na sua boca. Fiquei bastante zangada. Não deveria ter ficado, eu sei, porque você ainda não sabe o que está fazendo. Mas precisa aprender. E como faço para te ensinar sem perder o equilíbrio, sem que isso desperte meus instintos mais primitivos? Difícil, filho, bem difícil.

Ontem me irritei. Subi o tom de voz - eu nunca havia feito isso antes - e você se assustou. Deixei você sozinho no berço "para pensar no que estava fazendo" enquanto eu respirava fundo na sala. O tempo inteiro eu tentava retomar o controle da situação, lembrando que eu sou o adulto aqui e você é a criança. Portanto, não tenho o direito de ter atitudes infantis e inconsequentes (como bater, morder, me jogar no chão, me descabelar, dar chilique, ou mostrar minha autoridade à força do jeito que se faz por aí. Esta cena é reservada para quem tem um ano de idade e não para quem tem 37). Pensando assim, me acalmei. E foi então que, com calma, você foi ficando despossuído e acabou dormindo nos meus braços, tranquilinho da silva.

Fiquei pensando o que dizem os livros sobre este tipo de situação. Sei lá, não dá tempo de consultar na hora. O que fazer? Como ensinar um bebê (você ainda não tem a compreensão de uma criança) que ele não deve se comportar assim?

Não sei, filho, juro. Quando você estiver maior, talvez seja mais fácil pois poderei te explicar e iniciar um diálogo. Eu disse talvez....

Um beijo na ponta do seu nariz,

Mamãe.

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