E então estávamos nós na pracinha hoje de manhã.
Mães e o mulherio em geral ficam naquele conversê furado, né, todo mundo falando de vacina, sono, alimentação, crianças. Juro que nunca me meto no papo, pois em geral minha opinião é sempre do contra, e ando cansada, com sono, nem um pouco a fim de explicar que focinho de porco não é tomada.
Eis que duas senhôuras, com bebês bem pequerruchos no colo, discursavam, em alto e bom som, sobre a cesárea delas - eu não sei por que diabos, esse tipo de gente sempre cai em cima de mim, preciso frequentar mais a sessão de descarrego.
- "O parto da Bruna foi cesárea porque ela estava com cordão enrolado no pescoço. Sabe, achei melhor mesmo, pois o parto normal é bom só pra mãe. O pobrezinho do bebê nasce todo rôxo, cansado".
Eu estava muda, acredite se quiser, e muda permaneci - até porque estava mais interessada em ver os gracejos do meu filho tentando chutar uma bola de futebol. Quando já ia saindo de fininho, pimba!
- "Como foi o parto de Benjamin?"
Tóin. Fui chamada para a peleja.
- "Foi normal, normalíssimo", resumi, sem querer bate-boca.
- "Ah, então ele era pequenininho, não tinha o cordão e..."
- "Olha, cordão no pescoço não quer dizer rigorosamente nada", interrompi, meio irritada. "Não impede o parto normal de jeito nenhum, a única coisa é que o médico precisa saber puxar direito o bebê - e poucos médicos no Brasil sabem disso, infelizmente, porque aqui é a terra da cirurgia. Neguinho aqui adora uma faca, impressionante. Já aproveita a cesárea pra fazer uma lipo. Ah, sim. Ele nasceu rôxo, como todos os bebês nascem, inclusive os de cesárea. Azul, parecia um pequeno smurf. Enorme, lindo, com 4,020 kg, cheio de saúde, pulmões abertos, prontos para respirar, porque nasceram na hora certa, sem intervenções".
Já que a bola estava no pé, terminei chutando pro gol:
- "Só me arrependo de duas coisas: de ter feito o parto no hospital, já que podia ter em casa, e de ter pedido anestesia".
O mulherio silenciou. E eu olhando com aquele ar de "quem vai encarar agora"?
Até que a tal do cordão, resolveu me peitar - sem imaginar o tamanho dos meus peitos.
- "Nossa, corajosa, hein", ironizou. "Pelo menos o Benjamin está bem, mas em muitos casos desses o final é triste...".
- "Por erro médico, você quer dizer. Olha só, não quero discutir a sua opção por cesárea. Cada pessoa escolhe a maneira como seu filho deve chegar ao mundo. Apesar de eu achar que esta não deveria ser uma opção, e sim uma cirurgia de emergência, assim como ela é considerada em todos os países, menos aqui no Brasil. Só não vamos divulgar o que não é verdade a respeito do nascimento, certo?".
Acho que virei persona non grata na pracinha. Espero que meu bebê não sofra bulling por isso.
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