sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Entre nós dois

Benjamin, meu amor,

Eu sei que você está aborrecido comigo. Também sei que já te pedi desculpas algumas vezes e tentei te explicar o que houve hoje cedo. Não foi por querer, meu filho.

Mas veja só: você estava mamando e me deu uma mordida daquelas. Doeu, ai como doeu. Junto com a dor, veio meu susto, pois eu ainda mal conseguia abrir os olhos de tanto sono, afinal eram 5h da manhã e meu estado, como você sabe, era de semi-zumbi. O que você faria no meu lugar? Eu gritei como reflexo da dor, fiquei brava. E te assustei. Então você fez fez cara de choro, largou o peito, virou o rosto e não quis mais saber de mamar. Eu bem que tentei me retratar, mas nada. Você ficou irredutível. Nem uma gota de leite.

Imagine que este nosso mísero (e primeiro) desentendimento está durando um dia todo. Você não quis mamar nenhuma outra vez, mal consegue olhar para mim. Todas as vezes que tentei te dar o peito, antes uma fonte de alegria e prazer, meu passarinho se pôs a berrar. Sim, você vê o peito e abre o berreiro - justo você, que não chora nunca.

Meu anjo, você já não estava comendo direito e agora sem mamar. Nem preciso te dizer que estou me roendo de culpa (por que diabos eu tinha que gritar de dor?). Passei o dia com o choro entalado na garganta - o meu, não o seu.

Eu sei que vai passar, você vai deixar este episódio pra lá, e muitos outros ainda estão por vir. Eu só espero que sempre, sempre, nós dois possamos nos comunicar para nos entender. Que eu possa te perdoar, ser perdoada, e que você tenha sempre a certeza deste amor infinito que sinto por ti.

Filho, tem um trecho de um texto que gosto muito, do Paulo Mendes Campos, sobre Alice no País das Maravilhas, que diz o seguinte: "A gente vive errando em relação ao próximo e o jeito é pedir desculpas sete vezes ao dia: "Oh, I beg your pardon!". Pois viver é falar de corda em casa de enforcado. Por isso te digo, para tua sabedoria de bolso: se gosta de gatos, experimenta o ponto de vista do rato. Foi o que o rato perguntou à Alice: "Gostaria de gatos se fosses eu"?

Beijo enorme, do tamanho do infinito,

Mamãe.

2 comentários:

Lívia Lisbôa disse...

Passarinha,
talvez ele também já experimente a culpa de querer dar à mamãe-passarinha o prazer de mamar, e já não conseguir. Talvez o berreiro venha do fato de não querer machucar quem tanto lhe quer bem.
Vocês dois ensaiam novos vôos, precisam só sincronizar as rotas, novamente...
Aguarde e confie.
Beijos nesses olhudos!!
Lívia.

Mariana disse...

Ai, como é difícil... Ele está numa fase em que já começa demonstrar aqueles sentimentos humanos complicadinhos, que ninguém ensina, mas que todos nós temos: raiva, ansiedade, medo, rancor, ironia, euforia.
Vou te contar uma coisa: quando a gente pega o jeito, acha que agora já está sabendo lidar com as crianças, pronto. Muda tudo e começa uma nova fase. E vamo que vamo.
Beijo, linda, saudade.