segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Tudo sobre sua mãe

Filho querido,

Aqui quem fala é sua mãe.

Posso dizer que tenho muitos defeitos - e algumas qualidades, é claro. Alguns destes defeitos você já deve conhecer. Outros, eu vou me esforçar para que nem conheça.

De todo modo, você já deve ter notado o quanto sua mãe é medrosa. É chato isso, eu sei. E sei também que a maioria destes medos não têm nenhuma razão de existir. Mas, sabe o que é, filho? Infelizmente, sua mãe foi ensinada (ou melhor, adestrada) a ter medo de tudo. Olha que horror. Achavam que este era o melhor jeito, sei lá.

Bom, o resultado disso é que realmente sua mãe se tornou uma pessoa assustada além da conta. Coitada, ela sofre com isso.

Porém, esta sua mãe nasceu com um plus, um componente de fábrica chamado inconformismo (não contavam com isso...). Este inconformismo, filho, fez com que ela se jogasse no mundo diversas vezes, de cabeça, mesmo se pelando de medo. Coisa que muita gente não fez. Aos 19 anos, ela já se sustentava, inventou-se numa profissão, viajou para o exterior diversas vezes, entre elas como correspondente internacional ainda muito jovem, até subiu um vulcão sozinha e acampou no deserto. Estou te contando tudo isso para você ver que sua mãe luta contra estes dogmas que foram enfiados na cabeça dela (esta é uma das suas qualidades, você vai ver). E que nunca vai usar isso como justificativa para te aporrinhar, viu?

Enfim, meu filho, por outro lado, muitos destes medos andam me assombrando. Sinto medo por você, olha que coisa. Medo de você não estar bem, medo de você sofrer, medo de um dia fazer você sofrer (confesso que este é o pior deles), medo de que alguma coisa possa acontecer e eu não te salvar.

Porém, sempre que estes fantasmas batem nos meus ouvidos, me lembro de um ensinamento budista que gostaria de te transmitir: a impermanência. Se eu puder te ensinar uma primeira sabedoria, meu anjo, gostaria que fosse esta. Lembre-se de que nenhum, mas nenhum sentimento, seja belo como a felicidade ou obscuro como o medo, dura para sempre. Tudo é transitório, impermanente. O que nos resta é aproveitar bastante os momentos felizes e esperar, com paciência, os difíceis passarem - porque, sim, eles passam. De preferência, evitando enxergar um ratinho do tamanho de um hipopótamo, como fazia Alice no País das Maravilhas (um dia, vamos ler este livro juntos, é incrível).

Medo é bobagem, filho. Um pouco de receio, lógico, todo mundo deve ter - aliás, é o que nos mantém vivos. Mas sentir pavor do desconhecido é quase um convite à covardia. Por isso, meu amor, não tenha medo. Principalmente dos seus sonhos. Se esta angústia aparecer, um dia, danada que ela é, pode ter certeza que eu estarei por perto para acalmar teu coração.

Um beijo enorme,

Mamãe.

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