Um dos pontos mais importantes é o quanto acreditamos que menos é mais. Criança pequena não precisa aprender a falar inglês, saber cores, números, pular, dançar tango, desenhar losangos. Tudo tem seu tempo. Criança pequena precisa brincar - e só. Ela precisa exercitar o cérebro com o que há de mais incrível: a fantasia. Para isso, os brinquedos mega coloridos, cheios de luzes e sons só atrapalham porque já estão prontos: eles pensam pela criança. Ali, ela nada tem para descobrir ou fantasiar. É só apertar um botão que um urso patético canta, conta até dez, diz boa noite. A boneca faz xixi e chama mamãe. O carrinho emite infinitos barulhos. Ao passo que um pequeno pedaço de madeira liso, simples, sem nada, pode se tornar um milhão de coisas: uma colher que prepara comidinhas, um carrinho que se arrasta pela casa, um colar, uma peça de uma torre. Tudo pode ser, basta que a criança imagine - sem que ninguém faça isso por ela.
Quando a criança brinca com um pedaço simples de madeira, um pano ou algo totalmente sem estímulos prontos, ela está desenvolvendo o que há de mais importante no seu cérebro, no tempo exato para isso. Enquanto o cérebro fantasia, os órgãos do corpo se fortalecem, crescem, dobram de volume. Formam uma base sólida de saúde, que será necessária pro resto da vida. Se durante este tempo de fantasias, a criança estiver ocupada em aprender álgebra, em ver o urso reluzente ou letárgica na frente da televisão, é muito possível que o restante de seu organismo fique mais fraco do que deveria.
Penso muito nesta teoria quando percebo o quanto nossa sociedade valoriza a precocidade e o excesso de estímulos. Brinquedo sem luz e barulho não tem graça, é simplório. É lindo dizer que uma criança de 5 anos já é alfabetizada, ou que uma outra de 2 anos sabe contar até 80. Mas ninguém percebe que esta criança é ansiosa, não dorme direito, ou muitas vezes fica disléxica. Eu mesma já caí nesta armadilha e me peguei encantada ao perceber o quanto Benjamin é adiantado para sua idade. Pais se enchem de orgulho e sobrecarregam as crianças de atividades mentais, quando nesta hora elas deveriam estar apenas brincando de empilhar panelas - sozinhas. Hoje mesmo uma mãe veio me dizer que o filho, de 6 anos de idade, tinha que ir para casa pois faria 6 páginas de dever de casa de matemática, mais 3 de português, mais 3 de história. Perguntei qual era a escola e ela estufou o peito, toda prosa. Eu não discuti, apenas disse que achava uma carga muito pesada para a idade dele. E perguntei que horas este menino brincava. Fiquei sem resposta.
5 comentários:
Mari, concordi plenamente!!! Tem um livro otimo sobre isso chamado Under pressure. Da uma olhada! Beijos, querida.
Autor Carl Honore
Vou ver, sim, Má. Essa coisa da agenda lotada e o excesso de estímulos para crianças me deixa muito preocupada. Elas definitivamente não precisam de nada disso... Todo mundo agora vem me dizer: "Você vai ver, agora que Benjamin está na escola, como ele vai desenvolver rápido!!". Como se isso fosse bom. Eu não quero que ele desenvolva rápido. Não quero que ele chegue em casa sabendo milhares de coisas novas. Só quero um espaço para ele brincar, só isso. Como uma extensão da sua própria casa.
é isso aí, mari. brincar e nada mais. valentina está numa escola também. já. mas sabe qual o "sub" da escola? "berçario e brincadeiras". é um baita quintal, sem salas de aula, carteira ou grade horária. o máximo! e ela volta feliz da vida, toda suja. amamos. beijo
Pois é, Giu. Seria preferível que ele ficasse mais um tempo em casa, pois sinto que ele ainda é muito pequeno ainda. Mas eu também preciso ter um tempinho pra trabalhar, então este foi o jeito que encontramos. Ele brinca muito, é bem legal. Na terra, na areia, na água. Uma farra.
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