Filho querido,
Você completou 10 meses e agora já pode ser chamado de um bebê de dois dígitos. Se contarmos em meses, posso te dizer que estes dois dígitos vão te acompanhar por um bom tempo da vida. Depois, a contagem passará a ser em anos. Neste período, você só passará para os três dígitos lá pelos seus 100 anos quando, provavelmente, esta sua mãe já não estará mais aqui e esta cartinha será peça de arqueologia.
O que mais tem me chamado a atenção nesta sua nova fase, digamos, adulta, é a expressão da sua vontade. Explico: você demonstra e faz o que bem entende, muitas vezes contrariando o que eu penso e o que eu gostaria que você fizesse. Por exemplo: você tem hora para as principais atividades do dia. Para comer, para dormir, para tomar banho (só não tem hora pra brincar, porque brincar é permitido o dia inteiro!). Isso porque fui convencida de que um bebê precisa de uma rotina estruturada. Concordo, inclusive porque recentemente conheci crianças com uma vida anárquica que não era nada legal para elas. Mas imagina o que significa para mim, filho, disciplinar e planejar a sua vidinha, se em 37 anos nunca consegui arrumar a minha própria? Bom, mas, enfim, você tem uma vida organizada (diferentemente da minha).
Só que o senhor nem sempre concorda com os meus horários. Então resolve não comer - e quando não quer, trava a boca e não come mesmo. Decide não dormir, e me dá uma canseira de mais de uma hora de põe e tira do berço. Cisma que não quer trocar a fralda ou tomar banho e dá show, se joga para trás, com tanta força que mal consigo te segurar. Tudo para impor a sua vontade.
Por um lado, finco o pé e mostro a você que o adulto responsável aqui sou eu e que, sinto muito, algumas regras impostas por mim você terá que seguir. Por outro, filho, sinto um baita orgulho de você. Fico orgulhosa da sua personalidade, do seu jeito de me mostrar que você não faz parte de mim, apesar de ter saído de dentro de mim. Sensacional.
Sei muito bem que você está crescendo e que esta sua personalidade vai ficar cada dia mais difícil de lidar. Mas tudo bem, faz parte do jogo. Para mim, e acredito que para a maioria dos pais e mães, este é o desafio: educar sem esmagar. Mostrar regras (porque o mundo é feito delas) sem ser autoritária a ponto de acabar com suas vontades, com sua individualidade. Um dia ainda teremos discussões inflamadas sobre este assunto. Parece que estou vendo a hora em que você vai me botar contra a parede e me acusar de déspota, com o dedinho em riste. Quando isso acontecer, meu anjo, prometo te ouvir (pode ser que você acredite o contrário, inclusive porque me sentirei bastante ofendida com a alcunha, dado meu histórico humanista). Muitas vezes é preciso endurecer a relação, sim - mas perder a ternura, jamais.
Beijos, com todo meu amor,
Mamãe
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