sexta-feira, 27 de julho de 2012

Em memória de Wesley

Wesley tinha dois anos. A mesma idade do meu filho. Talvez por isso, eu consiga imaginar como seria seu olhar, suas descobertas, suas manhas, suas teimosias, suas curiosidades. A vidinha de Wesley foi curta: ele faleceu, vítima de parada cardiorrespiratória em consequência de violentos e sucessivos espancamentos. O pai alegou à polícia que só batia no menino para "educá-lo" (as chamadas palmadas corretivas), uma vez que ele era muito "levado".

Essa história não sai da minha cabeça - não apenas pelo fim trágico do menino e sim pela vida que ele teve. Ele apanhou, apanhou muito. E não foi só uma vez. Apanhou porque mexeu no botijão de gás, disse o pai. Apanhou porque não parava quieto. Apanhou porque era criança. Tem muita gente que tem filho e esquece que criança não é boneca (por mais lindinha que possa ser): ela mexe nas coisas porque está descobrindo o mundo, é inquieta porque está viva.

O negócio é que o pai de Wesley acostumou a bater. Um dia, exagerou na mão pesada. E o menino morreu. Simples. Porque bater é assim: começa com um tapa na bunda. Depois o tapa não faz mais efeito, então é melhor bater um pouco mais forte. Juntando a raiva do momento, com o tempo, os tapas vão se tornando socos, chutes, pontapés. Até que chega no limite da morte. Aí você vai dizer: "Que horror. Este homem é um animal, um louco, um psicopata". 


Embora eu espere, francamente, que o pai do Wesley apodreça na cadeia e que passe o resto dos seus dias pensando no bebê que ele matou, não acredito que ele seja um maluco. Não acho que este moço seja uma aberração - pelo contrário. Ele deu azar e matou o filho. Quantos existem por aí que não matam, mas machucam muito, abusam a vida inteira do direito de serem adultos e mais fortes? Perpetuam o sofrimento das crianças? Converse com qualquer pediatra e ficará assombrado: todos os dias chegam crianças machucadas nas emergências dos hospitais, incluindo os que atendem a mais alta elite. Eu disse TODOS OS DIAS. 


Arrisco dizer que mais de 90% dos pais batem ou já bateram em seus filhos. Digo sem medo de errar. Porque sou mãe, convivo com uma criança, e sei muito bem o limite ao qual somos expostos diariamente. É preciso muito equilíbrio e cabeça fresca para não perder a razão. E as pessoas perdem. Então se justificam de todas as maneiras - que, para mim, são completamente descabidas.


A primeira é a chamada "palmadinha" no bumbum. Isso não tem nada de educacional. Palmada é  agressão física, minha gente. Se você é um adulto, é óbvio que tem muito mais força do que uma criança. Portanto, se bater, vai doer - ainda que seja de leve e na bunda. É só reparar como a pele das crianças é sensível ao toque. E não me venha com a justificativa de que você levou palmada e não morreu porque aí vou dizer que não morrer é bem diferente de viver.


A segunda é a máxima de que a criança "precisa de limites, de autoridade". Olha, eu concordo que limite é necessário. Mas respeito não se ganha com violência, meu caro. Levante a mão para seu filho sempre que quiser que ele faça algo, e estará ensinando que é assim que se ganha as coisas. Lembre-se que a criança aprende por imitação e veja que belo exemplo estará dando. Criança pequena não faz coisas que consideramos erradas "de propósito" ou "para provocar". Ela nem sabe esses conceitos tão complexos. 


Este raciocínio faz parte do mundo adulto. A criança é um poderoso espelho onde projetamos o que somos, ou o que fizeram de nós. Ela escancara feridas que ainda estão abertas em nosso peito quando nos contraria e assim nos deixa com raiva. Então, quem apanhou ou foi vítima de algum tipo de violência na infância, pode bater. É nessa hora que o inconsciente fala mais alto que a razão. Já ouvi relatos comoventes de mães que apanharam quando pequenas (levaram palmadas corretivas um pouco mais pesadas) e que já bateram em seus filhos. Elas hoje sofrem porque não querem mais perpetuar o seu sofrimento.

O pai de Wesley deve ter apanhado. Eu também apanhei, mas nunca bati. Já gritei e me descontrolei com meu filho, mas graças a muito tempo de análise hoje consigo perceber quando a situação foge do meu consciente e me remete a tempos primórdios, que meu filho nada tem a ver com isso. O que recomendo nessas horas é sair de cena. Deixe a criança sozinha e saia de perto dela. Em nome do amor que sente por seu filho, proteja-o de você mesmo. Antes de levantar a mão. E que Wesley agora descanse em paz.

3 comentários:

Renata Dias Gomes disse...

Chorei muito, Mari. Também nunca levantei a mão para Maiara e Tom e não tenho nada a acrescentar ao texto. Análise claríssima da situação.

Giuliana Bergamo disse...

Putz, Mari... Costumo fugir dessas notícias e das discussões que desencadeiam simplesmente porque não tenho estômago. Mas fui até o fim no seu texto, sempre pensando: exemplo, exemplo, exemplo. E, pluft! Você tocou no assunto lá no fim. Por que acho isso tão importante? Porque muita gente bate achando que nunca vai chegar ao ponto a que chegou o pai do Wesley. E felizmente a maioria não chega mesmo. Mas, se pensarem que, no mínimo, ao bater, estarão dando o exemplo de que a violência é uma forma de se conseguir algo, talvez parem para refletir. Talvez. Espero que seja assim. Beijo grande

Mariana disse...

Giu, eu também fujo deste tipo de notícia porque fico tão arrasada que nem consigo dormir direito. Mas esta gritou na minha cara.
E muita gente bate, sim. Diz que não bate, mas bate. Já vi manchas roxas na pele de filhos de amigos bem próximos - e acima de qualquer suspeita.