Ben, meu anjo,
Você agora já passa dos oito meses. É um rapazinho, praticamente. Está cheio de dentes na boca, ensaia seus primeiros passos, engatinha pela casa inteira e já demonstra força de vontade suficiente para lutar pelo que quer, e se negar a fazer o que não quer - como jantar, por exemplo, para mal dos meus pecados.
Fico pensando na minha vida, filho. Como ela era antes de você e como ficou. Nunca imaginei o que realmente iria acontecer comigo, esta mudança tão drástica. Sou hoje outra pessoa que ainda estou tentando saber quem é. Aquela que existia antes de você nascer era mais ou menos assim:
- Diurna, solar, saudável, leve. Levantava de manhã, pedalava na praia, corria pela orla, dava um mergulho, bebia uma água de coco e voltava para casa, pronta para um banho refrescante e só então sentar a bunda no computador para trabalhar, trabalhar, e trabalhar. Até sabe lá Deus que horas.
- Adorava ir ao cinema, assistir seriados na TV (alguns), e papear com os amigos sem hora para ir embora.
- Bebia pelo menos uma taça de vinho por semana.
- Leitora voraz, tinha o hábito entranhado de ler no mínimo um livro por mês.
- Era apaixonada por café da manhã, acordar, comer bem devagar e ler o jornal.
- Gostava de andar por aí, ver gente, observar os outros.
- Precisava de contato com a natureza para se sentir viva. E de ficar sozinha vez ou outra.
- Rezava e meditava diariamente, com fé, saudando a conexão com o sagrado.
- Morava no Rio, mas precisava ir sempre a São Paulo ver os amigos. Os amigos, aliás, eram seu chão, sua fonte de energia.
- Vaidosa, pintava as unhas, usava roupas alegres, coloridas, curtas.
- Escrevia diários.
Meu amor, esta era aquela que viria a se tornar sua mãe. Até tenho saudade dela, não vou negar. Mas eu me despeço desta mulher, para receber esta outra de agora, que estou tentando conhecer, e que nasceu no dia 27 de março, há 8 meses. Uma nasceu contigo, e outra morreu ali, naquele instante do parto, quando nos encontramos pela primeira vez. "A hora do encontro é também despedida", diz uma música linda, que vou te mostrar em breve.
O que posso te dizer é que esta mulher de agora é uma fortaleza. Possui um sentimento tão grande, mas tão grande, que gera uma força nas entranhas inimáginavel (com o perdão do lugar-comum). Convivo com o maior amor do mundo. E é esse sentimento que me faz seguir adiante.
Obrigada, filho.
Te amo, sempre,
Mamãe.
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2 comentários:
quero muito conviver com a nova mari. a antiga já era pra lá de encantadora, a nova então... beijo da velha e confusa amiga, que morre de saudades
Cá, a nova Mari herdou alguns sentimentos antigos. O amor e a saudade por ti, por exemplo.
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